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DESABAFO DE UMA EDUCADORA EM TEMPOS DE PANDEMIA

Por Vânia Lima Silva Santos*

 

Essa pandemia deixará lições e ensinamentos. Pelo menos é o que esperamos, que fique lições de valorização ao outro, acolhimento, empatia,  afetos, amor, união, transformação, sentimentos de mudanças e de quebra de paradigmas. Fé, perseverança, resiliência e esperança, reconhecimento de que somos seres mortais e, tão pequeninos, que um vírus mortal veio para nos mostrar isso.

Como sempre, nós educadores e profissionais da Educação somos  “convocados” para darmos conta de muitas situações, sem ao menos sermos consultados acerca do que pensamos em relação a tudo que acontece ao nosso redor e em plena pandemia. É de praxe essas ações no âmbito educacional em situações consideradas “normais”. É normal pensarem em nossas vidas e fingir que nos ouvem ou nos respeitam. É normal nos enxergarem como seres que se quer existem. É normal nos arrancarem, negar direitos, nos desrespeitarem, nos apontarem, nos perseguirem, pensarem em uma base comum curricular normativa construída de uma forma “democrática “ e “participativa” e nos impor, criando uma falsa ideia de participação, nos oportunizando complementá-la com o currículo local e achar que daremos conta de toda ela.

É normal criar meios e estratégias para nos induzir na falsa crença que participamos de todo o processo, achando que não percebemos  que esse documento norteador já possui um currículo oculto em suas diretrizes, e que pouco podemos acrescentar. É fácil nos manipular, pois muitas vezes não unimos as forças que temos para expressar o que pensamos e o que sentimos. Não quero dizer com isso que essas diretrizes não sejam avanços, são, mas o que nos deixa indignados é a forma que nos induzem a pensar que de fato tudo é construído com a participação de “todos”.

 “Enxergaram” nossos serviços como essenciais em plena pandemia, enxergaram que a Educação é prioridade e imprescindível e nos convocaram.  Em tempos tão difíceis, nos deram férias antecipadas, homologaram decretos e decretos a todo momento nos envolvendo – agora vai ser assim, vai ser assado…, ações necessárias?  Sim! Mas, ferindo direitos, sempre. Nos convocaram a trabalhar mas não nos deram as ferramentas, recursos ou formação necessários. “Buscaram” metodologias das quais alguns professores e profissionais da Educação nunca ouviram falar e disseram que era a mais apropriada para o momento. Muitos de nós não sabíamos o que era ou como era, mas fomos em busca, e mesmo assim não está claro para todos nós. Mas, estamos fazendo, ousados como sempre somos, abraçamos as aulas remotas, em breve híbridas, síncronas, assíncronas, para dar nossa contribuição social.

Nos reinventamos, trabalhamos dobrado, aprendemos a lidar com o que nunca fomos preparados, unimos forças, nos angustiamos, pesquisamos, corremos atrás, mas não deixamos a Educação parar. Estamos fazendo nossa contribuição com maestria, mas parece que não nos veem, não nos ouvem, não nos respeitam. Não está sendo fácil, mas estamos fazendo com a melhor qualidade que podemos no momento, mesmo o resultado não sendo como deveria, pois recurso tecnológico nenhum jamais substituirá o professor em sala de aula. Educação é calor humano, é essência , é corpo a corpo.

São tantas as dificuldades no presencial, imagine no sistema remoto ou híbrido, considerando que nem todos possuem um aparelho de celular, internet. Alguns professores também não têm e nem sabem usar os recursos. Assistimos vídeos para aprender gravar aulas, nos desdobramos. Não só o professor, também o coordenador pedagógico e tantos outros profissionais da Educação. Arcamos com custos que muitas vezes não está em nosso orçamento para cumprirmos com nosso “papel social”, muitas vezes imposto como salvadores da pátria. Não somos psicólogos, mas escutamos desabafos, angústias, dificuldades, medos. Entramos na casa de nossos alunos porque entendemos que não importe os desafios, é possível fazer a diferença, tudo isso com recursos escassos e, muitas vezes, ambientes inadequados. Na hora da aula online vizinho faz obra, barulho por todo o lado, filhos gritam, esperneiam, aparecem nas câmeras, internet caí, panela de comida queima e não tem um bendito dia não somos convocados a fazer inscrição no curso X e Y para assistir uma live ou participar de uma bendita reunião ou formação online.

Muitos nunca pisaram em uma sala de aula como educador ou coordenador pedagógico e falam, falam, falam. Não nos ouvem ou fingem ouvir, utilizam um discurso  pronto e teórico que não combina com a prática em que estamos vivendo. Muitas destas formações ou reuniões pouco acresceram, pois, não eram a resposta que ansiávamos. Ninguém se coloca em nosso lugar – temos família também, tememos o vírus, não somos imunes. Temos nossos problemas, trabalhamos muito, nos esforçamos muito e temos a consciência do dever cumprido, mas ninguém vê, não nos ouvem.

Em tempos normais, enfrentamos diariamente salas de aulas superlotadas, cobranças de resultados que, muitas vezes, não dependem só de nós, salários defasados, desvalorização, lidamos com a diversidade em sala, recursos precários, ambientes, muitas vezes, inadequados para educar, com os níveis de aprendizagens diferentes, e em muitos lugares, até o biscoito pedagógico nos é negado. Temos que ser ouvintes, empáticos, solidários, tirarmos do nossos bolsos muitas vezes para vermos as coisas acontecerem. Em tempos de valorização das competências socioemocionais, temos que ser emoção todos os dias, mas é bom que todos compreendam que também somos “Gente”.

Parafraseando o poema imortal “Escola”, de Paulo Freire, professor é gente, coordenador é gente, diretor é gente, zelador é gente, merendeira é gente, secretário é gente, vigia é gente, tem gente na escola, gente que lida com gente, gente que forma gente, fico aqui a pensar, após a pandemia, o que acontecerá com o emocional dos profissionais da saúde, da Educação e outros diretamente afetados por ela. Vivemos em uma situação de alerta constante. Nunca mais seremos os mesmos, não desmerecendo as demais categorias, mas não é à toa que os índices de depressão, síndrome do pânico e tantas outras doenças emocionais são alarmantes nesse meio, inclusive o suicídio.

Como disse o imortal Nelson Mandela, a Educação é uma das armas mais poderosas para mudar o mundo, e o mundo precisa ser mudado. Vamos mudar essa situação através do conhecimento. Não vamos vencer esse vírus somente com a vacina, precisamos adotar novos conhecimentos, novas atitudes, novos valores. Nos deparamos com uma nova convocação, de retorno no formato híbrido. Nem toda escola está preparada para isso. A situação é preocupante, para toda a população, pois na maioria das  casas desse país há um estudante. Como é de conhecimento, as crianças podem ser assintomáticas e transmitir o vírus para aqueles com quem convivem.  Me pergunto: que caos poderá se instalar com o retorno das aulas presencias, sem as condições mínimas? Estamos perdendo colegas de trabalho, nossa categoria tem muitos idosos, pessoas com problemas de saúde extremos.

 No momento, muitos temem em ir a um hospital, pois o vírus estará lá. E na escola, não? A verba do PDDE mal dá para o ofício e impressão das atividades, produtos de limpeza regrados, isso em tempos ditos normais. Com a pandemia, quando vão cortar verbas, enxergam logo a Educação. A realidade da maioria das escolas é que temos de criar projetos para buscar fundos para a escola sobreviver. São muitas carências que lidamos no dia a dia. Precisamos unir forças,  principalmente com os pais  e sociedade civil para que entendam de uma vez que professor e o profissional da Educação não querem ficar ganhando no mole não, por que não estamos ganhando, estamos é nos desdobrando.

Dói ver comentários que ofendem. Muitos dizem que estamos recebendo sem trabalhar ou que não queremos trabalhar. Queremos retornar sim, também queremos nossa rotina de volta às nossas atividades. Respeitamos a todos e sabemos do nosso papel na sociedade. Respeitamos os profissionais da saúde que estão lidando diariamente com os infectados, nossos idosos que ajudaram a construir esse país, os povos indígenas, quilombolas, os portadores de doenças crônicas, todos os grupos prioritários. O nosso lema é respeito. Queremos respeito também. Somos pé de poeira, da base, do pé no chão, da lida, não somos os engravatados, que estão em seus escritórios e se adquirir um vírus desse, têm dinheiro para pagar um hospital particular e, estes que decidem nossas vidas e nos ditam, mesmo sem  conhecerem a Educação.  Quem foi que contribuiu com a formação do médico? Do enfermeiro? Do cientista que descobriu a vacina? Também precisamos ser acolhidos, exigimos e merecemos “respeito”. Necessitamos do apoio de toda sociedade, pois senão essa situação vai virar uma bola de neve insustentável.

Fico imaginando quantos mortos nesse país. Para alguns parece que se tornou “normal”, estão pouco se lixando, inertes, agem pouco, pensam pouco, oferecem pouco. A quantidade de mortos nesse país corresponde ao número de habitantes de cidades inteiras, como se fossem dizimadas de um dia para a noite. Precisamos voltar, mas não venham com falsos protocolos de segurança. Precisamos ser vacinados antes que nos empurrem para dentro de uma sala de aula em pleno auge da pandemia. Não vamos produzir muito com medo.

Mais do que nunca precisamos de união e compreensão, é urgente e necessária a vacinação dos profissionais da Educação. Se não formos ouvidos, a situação muito se agravará. Que fique aqui registrado o grito de tantos profissionais e, reitero, nosso grito não é só esse, é também por respeito, por valorização, por reconhecimento, contra injustiças, contra a negação de direitos e muitos outros gritos entalados em nossas gargantas…

A baiana Vânia Lima Santos é professora e coordenadora pedagógica. Possui licenciatura em Pedagogia / História. É pós-graduada em Gestão e Organização Escolar.*

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