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Seminário aponta valorização da identidade negra como ação no combate à discriminação e preconceito

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Crédito das Fotos: Getúlio Lefundes

As identidades étnicas e raciais são construções sociais e históricas. No seminário “Identidade Negra”, promovido pela APLB-Sindicato nesta quarta-feira (9), no Hotel Porto Bello, foi unânime a importância de se fomentar as discussões em torno da valorização e fortalecimento da identidade negra nas escolas e na sociedade.

Na abertura dos trabalhos, o Grupo Arte de Dançar encenou uma apresentação artística cultural explorando a dança africana. A professora e diretora da APLB Clarice Pereira, que teve a iniciativa da realização do evento fez questão de ressaltar a importância da discussão do tema nas escolas e na Jornada Pedagógica no início do próximo ano. Para Clarice não existe uma fórmula da aplicação do tema nas escolas e entre os educadores, mas é preciso boa vontade e coragem. “Eu sempre digo que é muito mais fácil lembrar do Halloween, uma cultura distante da nossa. Mas é preciso ampliar as discussões para que se fortaleça a autoestima de todos nós e se compreenda que a cultura de um povo ou o conjunto de suas práticas culturais constitui parte  daquilo que chamamos de identidade. É necessário que toda a sociedade entenda, respeite e valorize as crenças religiosas, práticas culturais, línguas e representações de mundo de todos os grupos, inclusive os negros”, ressaltou.

Seminário anual

A secretária Estadual de Políticas para as Mulheres Olívia Santana, uma das palestrantes convidadas, em seu pronunciamento reafirmou a necessidade de que “a Lei 10. 639 deve ser cumprida”. Segundo ela, é preciso por um fim a este costume de que as leis não saem do papel. Olívia já foi secretária municipal de Educação, quando adotou como principal política a operacionalização da Lei 10.639/2003, que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira. “Parabenizo a APLB por este seminário, mas me preocupo com os educadores que não estão aqui neste evento. Os que estão aqui tenho certeza de que já fazem algo e buscam se empoderar de conhecimento. Sugiro que este seminário faça parte da agenda de atividades anual da APLB-Sindicato”, propôs Olívia.

Valdina Pinto, Makota do Terreiro Tanuri Junçara também foi palestrante e defendeu que deve existir o respeito na educação para a convivência pacífica entre as religiões. “Os educadores devem revelar a pluralidade de crenças e cultura do povo brasileiro.Muitas vezes alguns pais, e alguns adeptos de religiões evangélicas se recusam a estudar a cultura afro-brasileira e a cultura africana. E colocam tudo isto como sendo de Satanás, ou do Demônio. Isto realmente é muito mal e precisa acabar. Afinal, a cultura afro vai além de religião”, concluiu.

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Valdina explicou porque é mais conhecida como Makota. “Meu nome é Valdina Oliveira Pinto. Entretanto, no Brasil, na Bahia mais especificamente, me conhecem como Makota Valdina. Makota é o titulo religioso que eu tenho porque sou do Candomblé, da Nação Angola, e na comunidade baiana me conhecem mais por este título, por causa de palestras e encontros que faço na Bahia e também no exterior”.

A vice-coordenadora da Aplb Marilene Betros fez uma explanação sobre a Conjuntura Política do País e elogiou a conquista da realização da 1ª Conferência Nacional de Educação. Ela chamou a atenção para a luta de classes que está em efervescência no momento. “O debate sobre a conjuntura nacional e internacional é muito importante para que nós, trabalhadores em educação possamos levar essa discussão para nossos alunos e a sociedade. Este processo de avanço precisa ser aprimorado e, para isso, devemos trabalhar diariamente. Defender a democracia é defender o Brasil”, afirma Marilene.

Aplicabilidade da Lei 10.639

O seminário prosseguiu a tarde, com informações e debate sobre as relações entre educação, cultura, identidade negra e formação de professores, tendo como enfoque principal a aplicação da Lei 10.639/2003.

Antes da apresentação dos palestrantes, o poeta e escritor Nivaldino Félix, diretor de imprensa da APLB-Sindicato, defendeu o aprofundamento do debate sobre a herança africana na formação do Brasil e condenou a visão apenas eurocêntrica da história e cultura brasileiras.  

Ele propôs que o Sindicato intensifique campanha pela implementação da Lei 10.639 nas escolas de todo estado. “Esta campanha tem que ser abraçada por todos nós, nos Núcleos, Delegacias e Regionais da APLB”, defendeu Felix, aproveitando para convidar os presentes para o lançamento de seu quinto livro, que trata sobre temáticas históricas e raciais, marcado para acontecer no dia 24 de janeiro de 2016, uma data simbólica para a comunidade negra, por ser o mesmo dia em que aconteceu a Revolta dos Búzios em Salvador, no ano de 1835.

O professor Oduvaldo Bento, também diretor da APLB, fez um breve recital com músicas e poesias alusivas à consciência negra. A professora Mariângela de Conceição do Almeida, também apresentou uma composição de sua autoria.

Presente no seminário, o presidente da CTB/BA fez uma saudação aos presentes, elogiando a APLB pela iniciativa de realizar o importante debate, por fortalecer a discussão sobre a história real do Brasil e ressaltou a grave crise do sistema capitalista em todo o mundo, e também no Brasil, que tem levantado um ambiente mais conservador, reacionário e violento, acirrando a violência e discriminação contra todas as minorias. Ele convocou os educadores para uma manifestação em Defesa da Democracia, que acontecerá no próximo dia 16 de dezembro, em Salvador.

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O racismo existe

Em seguida foi formada a segunda mesa dos debates, que teve como primeira palestrante a professora de História Edizia Miranda. Ao abordar o tema ”Aplicação da Lei 10.639/2003 no Currículo Escolar”, a especialista em Planejamento Pedagógico e Psicologia Transpessoal fez um panorama sobre o sistema escravista no mundo e a gênese do racismo no Brasil.

“Discutir o racismo não é perda de tempo, porque nós o vivemos. Quando a Lei 10.639 foi sancionada em 2003, o presidente Lula estava atendendo a uma briga do movimento negro de uma de três décadas. Não foi um prêmio, não foi uma bondade presidencial, foi o resultado de uma luta que refletia o que a sociedade brasileira vive. O racismo é real, nós sabemos que ele existe”.

Sobre a aplicabilidade da Lei 10.639, a especialista destacou que a escola tem papel central na reeducação das relações étnico-raciais e para isso precisa reconhecer o racismo na sociedade brasileira, e consequentemente na própria escola, e enfrentar sem receio as tensões. “A abordagem tem que ser interdisciplinar e intersetorial, através de trabalhos coletivos entre os diferentes atores da comunidade escolar, envolvendo todos os profissionais da educação. A lei precisa ser implementada durante o ano todo, não apenas no dia da Consciência Negra, e replicada na rua, em casa, em toda a sociedade”, defende.

Marcos Rezende, bacharel em Historia e militante do movimento social negro, que abordou o tema “Gênero e Raça no Cotidiano Escolar” deu um depoimento sobre a sua experiência pessoal, destacando que na escola o negro e seu padrão estético dificilmente são vistos de maneira positiva. E apontou a instituição como um espaço que reproduz o que acontece na sociedade e onde o processo de construção da identidade negra também é de maneira tensa.  “Meu pai dizia: se você não sabe que é negro, alguém vai te dizer. E eu afirmo que na escola com certeza isso vai acontecer. Quase sempre de forma cruel”, testemunhou o ativista.

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Amor e solidariedade

Stael Kyanda Machado, artista plástica, professora e psicanalista, fez uma apresentação lúdica e ao mesmo tempo didática, através do “Recital Construindo a Identidade”.

Com leveza, bom humor e boas doses de música e poesia, Kyanda destacou que a escola precisa colocar os alunos em contato com os elementos que formam cada grupo étnico brasileiro, para que eles sejam capazes de compreender a complexidade dessas identidades e, assim, se afirmar não apenas pela cor da pele ou a textura do cabelo, mas também por outros elementos, como cultura, crenças e herança histórica.

Para colocar em prática esta mudança, ela recomendou os professores a fortalecer o amor, a solidariedade e o respeito às diferenças. “A ação do cuidar tem a ideia de harmonizar as relações humanas e o equilíbrio junto ao meio social e à natureza. Mas como é que nós vamos cuidar se os nossos complexos não forem trabalhados?”, questiona a especialista, cuja apresentação teve vários momentos de interação com a plenária.

Durante o evento, as pessoas que posaram como modelos para cartazes e banners do evento foram homenageados, além de funcionários e diretores envolvidos na construção do seminário. À tarde, o seminário foi encerrado com uma animada apresentação musical da cantora e radialista Alice de Sanayá, também professora da rede municipal de Salvador.

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