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Reunião no Central avalia processo de “enturmação”

Mais um capítulo da novela que envolve o processo de “enturmação” – junção de turmas diferentes de alunos em um único grupo – foi exibido nesta quarta-feira (31), no Colégio Central. Uma comissão formada por professores da instituição se reuniu, durante a manhã, para avaliar o processo implantado pela direção da escola há 15 dias.

Para o professor Jaime Nobre, que integra o colegiado formado por docentes do Central, a iniciativa não tem legitimidade e vai de encontro aos princípios psicopedagógicos e sociais “Os alunos não têm condição de absorver o conteúdo perdido (durante a greve que durou 60 dias) em um, dois meses”.

Nobre faz parte da turma de 30 professores que entrou com uma ação de pedido de intervenção do colégio, no Ministério Público Estadual (MPE), no último 19. No documento, eles reivindicam ao Estado, o pagamento de multas indenizatórias e reparatórias aos estudantes.

Valnice Soligmac, que leciona física há 30 anos na casa, também é contra o processo de composição de grandes grupos de alunos. Segundo ela,  a crise de aprendizado no colégio atinge os estudantes das três séries do ensino médio. “Com essa enturmação, muita gente que não viu o conteúdo de diversas disciplinas acaba pegando o bonde em andamento”.

O estudante Santine Amaral, 17 anos, está no terceiro ano e acredita que a aglomeração de alunos que são de grupos heterogêneos prejudicará o aproveitamento do conteúdo. Na turma de Santini não teve aula de biologia desde o inicio do ano. Quando a nova professora chegou para ocupar o posto vago, recebeu o prazo de dois meses para fechar o conteúdo equivalente a três unidades, “sendo que minha primeira unidade só teve três aulas antes da prova”, acrescenta.

Adalberto Lima Neto, 18, também está no último ano escolar e teme que o Ministério da Educação não emita seu certificado de conclusão do ensino médio a tempo de se matricular em uma faculdade. Além disso, ele acredita que a enturmação prejudique o aprendizado. “Os professores que entram não conhecem o nosso ritmo e acabam perdidos também”.

O corpo docente também acusa o diretor Jorge Nunes de tomar as decisões de forma unilateral. Moacir Francisco da Silva, que dá aula de Física há mais de 15 anos na instituição, disse que ninguém (alunos e professores) foi procurado para discutir a enturmação.“Com a junção das turmas, muitos professores ficam com horário vago enquanto muitos alunos também ficam sem aula”.

O outro lado – Jorge Nunes, diretor do Central, disse que “há muitos interesses em desqualificar o processo”. “A maior parte dos problemas vividos dentro da escola é de caráter político”. Ele justifica ainda que 90% das novas turmas já estão integradas. “Encontramos uma situação difícil e estamos procurando a melhor forma de resolver o problema. Os professores excedentes serão aproveitados para aulas de reforço e recuperação paralela”.

Entre os estudantes, há também um grupo que defende a enturmação. Larissa Souza, 17, é aluna do segundo ano e afirmou que esse não é o principal problema da instituição. “A falta de professores não é novidade aqui. Desde 2005 que há várias disciplinas que são empurradas com a barriga. Eu acredito que a junção das turmas é um processo que busca ajudar os estudantes”.

Anderson Batista, 19, também aprova a iniciativa, mas admite que não é o ideal. “É melhor ter essa pequena base do que nada”.

A Secretária Estadual da Educação (SEC), por meio de assessoria de comunicação, reconheceu a necessidade do processo de enturmação. “Havia uma disparidade de turmas. Algumas salas tinham menos de 10 alunos enquanto outras possuíam mais de 40”, informou uma fonte da SEC.

Matrícula irregular – O diretor Jorge Nunes denunciou ainda irregularidades no  processo de matrículas na rede estadual de ensino, promovida a partir de dezembro do ano passado. Segundo ele, o Central sofreu um processo de maquiagem de números, onde a quantidade de alunos matriculados é bem superior ao dos que freqüentam efetivamente a escola. “Quem fazia isso, inchando a escola, queria garantir orçamentos maiores”, afima.

Para resolver problemas como este em toda a rede pública estadual, a Secretaria de Educação destacou 128 técnicos que estão visitando, desde setembro, escolas da capital e do interior. Segundo informações da SEC, 1.753 unidades educacionais serão inspecionadas até o fim deste ano.

 

Matéria publicada no Jornal A Tarde

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