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O DESPOTISMO ESCLARECIDO NO REINO DO DENDʹ – Capítulo III

Por Marcos Barreto²

CAPÍTULO III – Que fulêragem é essa de escravizado protestar?!

No começo do mês do desgosto, do ano do dendê real de 2017, El Reizinho estava num verdadeiro “calundu”, suando a lata que nem cuscuz, por conta dos perrengues com os Articuladores Pragmáticos pela Libertação e contra a Burguesia – APLB.

Os escravizados se amotinaram no Quilombo dos Bancários e resolveram partir para o que der e vier! El Reizinho convocou La Palomita, a Imodesta, e sua trupe de condes do Grupamento de Repressão aos Escravos – GRE e rezou a missa de corpo presente ou, com o perdão do trocadilho, deu a real:

– Que “fulêragem” é essa de escravizados protestar? Por acaso está faltando instrumentos de trabalho no Reino do Dendê? Comprei papel e nanquim para vocês retratarem a cara dos armengados. Liberei o uso de chicotes, cassetetes e correntes. Pago a vocês seus respectivos pesos em licuris de ouro e vocês sequer sabem aplicar castigos exemplares, que botem esse povo na linha e com o rabinho entre as pernas?

El Reizinho estava puto da vida… Agora caro leitor, imagine como a coisa ficou após a olheira real, chamada por AsCoMica, invadir aquele colóquio confabulátorio e, ainda caindo pelas tabelas, “largar” as últimas notícias:

– Vossa Majestadinha, ontem a líder da resistência, La Elzita, armou a cabeleira, juntou uma galera de guerreiras e guerreiros, a APLB, e invadiu o morro do Castello de SMED. Botou um “Filhote da Timbalada” portando tambores feitos de búzios pra chamar o povo. Parou as carruagens e contou pra todo mundo a situação das senzalas de aula…

– Mulequera fidapeste !… Mas o Conde Markolérico num disse que eles iam se borrar com o corte do licuri Majestadinha? (Intrigou la Palomita).

AsCoMica ainda sem fôlego, tomando um copo de água com açúcar, continuou:

– A parte pior aconteceu hoje… Reuniram-se na antiga Praça dos Enforcamentos e saíram em direção à Gruta da Lapa, aquela que Vossa Majestadinha deu aos seus primos reais para explorar os marineteiros do reino. Não deu tempo de preparar os Guardiões da Monarquia – GM, foi um “Deus nos acuda!”. Até a GRE do Condado Central, que era “passagem” pro arrastão, foi alvo da ira dos escravizados. O povo está se amotinando contra sua magnânima malevolência real. (Concluiu AsCoMica, esvaindo-se em lágrimas de crocodilo pois, no fundo, tava era de saco cheio de apagar incêndio por causa do déspota).

Dom Antonico, virado num mói de coentro, sapateou na mesa real e concluiu:

– VOCÊS QUEREM CAIR EM DESGRAÇA PERANTE SEU EL REIZINHO?

A coisa que já estava complicada, com todo mundo entupido, evoluiu para gente se mijando e pensando em perder as mordomias do ducado e dos condados. Os condes que tremiam feito vara verde foram socorrer “Marcito de Sabugosa” e “Fabrecito, Zé grandão” que desmaiaram…

La Palomita, se expressando que nem a Gaga de Ilhéus, começou a sua análise sobre o miserê estabelecido:

-El Ma-Ma-Majestadinha, o confisco do licuri e a ameaça de tronco foram agravadas pelo Dendêcrepto Real. As senzalas de aula estão fechadas. Este bando de escrotos, quer dizer, escravizados, não sabem reconhecer Vossa benevolência em não mandar usar o pau-de-arara e afogamento em baldes para que eles entendam o quanto vós sofreis para garantir a infelicidade deles… Afinal, o que seria desse bando de “zé ninguém” se não pudessem se lascar de trabalhar em suas senzalas?

El Reizinho fitou La Palomita e, num gesto de reconhecimento e nobreza ao esforço da condessa, respondeu com sua delicadeza real:

– TU TÁ ME TIRANDO COMO OTÁRIO? Cê acha que esse “gomex” no meu cabelinho real é só vaidade? Se ligue! Eu quero saber o seguinte: onde tu tava no dia da invasão do Castello de SMED? Tipo assim, se tu tivesse lá para impor limites reais com a borracha na mão, eles não iriam fazer de novo!

La Palomita sentiu que o bicho ia pegar, então derrubou o serviço:

– El Reizinho, eu tava lá. Mas, não tava… Na verdade, quando vi aquele povo todo, fiquei com medo de pegar alguma doença do tipo “ter que trabalhar” numa senzala de aula… Pois, embora eu nunca tenha visto uma, dizem que parece o caldeirão do inferno: quando faz sol, a gente morre cozida; quando chove, a gente morre afogada… Então, vesti minha “roupa de sapo” e dei o zignal… Me perdoe, Majestadinha.

El Reizinho estava bestificado com aquela revelação… Baixou o cabeção e ficou em silêncio alguns segundos. Em seu reino, algo estaria acontecendo.

Parece que toda a equipe do Condado de SMED tava numa lombra só… Ninguém sabia pra onde correr… Mas ainda havia ali um suspiro de esperança: a vaidade de Antonico.

Diante do relato inesperado e pensando em sua imagem como déspota, refletiu:

– La Palomita, eu aceitei a sua indicação. Lhe mandei pra Cachoeira e lhe ensinei a bater tambor… E vosmicê, apesar da demora, reconhece a beleza e as qualidades reais das senzalas de aula que eu mesmo projetei. Muito tempo e milhões licuris reais foram entregues a empreiteiros para fazer estas senzalas, que são ícone da engenharia feudal em prol do regime escravocrata. Enfim, a glória! Uma vassala surge com o reconhecimento: PARECE O CALDEIRÃO DO INFERNO! Enfim uma definição de acordo com minha linhagem real. Tu serás gratificada por este momento. Peça e lhe será concedido!

La Palomita, vendo aquela oportunidade ímpar, largou na lata:

– Majestadinha, não quero ouro ou licuri. Quero algo mais precioso e menos oneroso. Não sei se o meu desejo estaria ao seu alcance (provocou la condessa de SMED).

– Sou pequeno, mas não sou metade! Neste reino eu posso tudo! O que seria esse desejo que o licuri não compra? (Perguntou EL Reizinho).

– Eu quero a fórmula do laquê indesmanchável que, segundo dizem as escravizadas, só o clã de La Elzita, a líder da resistência, conhece…

– Então, que se preparem os Guardiões da Monarquia – GM. Da próxima vez que a líder da resistência tentar invadir o Castello de SMED, vumbora deixar ela entrar “a migué”. Aí, na trairagem, aprisionaremos ela até que confesse como mantém sua cabeleira sempre armada!!!

E com as cabeças fervendo e maquinando, os déspotas do dendê foram tirar uma madorna pra deixar passar a bruxa, pensando em outra forma de vingança real, contudo, focados no momento de roubar o laquê indesmanchável, arma capilar da líder da resistência.

Leia também:

O DESPOTISMO ESCLARECIDO NO REINO DO DENDÊ – Capítulo I
O DESPOTISMO ESCLARECIDO NO REINO DO DENDÊ – Capítulo II

¹ Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
² Marcos Marcelo Barreto – Pedagogo, Psicomotricista e Músico. Professor da SMED e diretor da APLB-Sindicato.

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